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Parte II da pesquisa e prática com abacateiros que tenho chamado de DIÁLOGOS SUBSTANCIAIS. No grupo de estudos "Outras Matérias" (link no menu trabalhos), pude espacializar parte dessa pesquisa em uma exposição no Instituto Tomie Ohtake

Em agosto de 2021 fiz amizade com uma árvore de abacate. Lá em Gonçalves, MG. Ela largava frutas ladeira abaixo que eu colhia pra comer e distribuir. Deixei de simplesmente receber e passei a prestar atenção na árvore, adubá-la, registrá-la com desenhos, fotos, além de conversar e consequentemente admirá-la. Em uma ventania, ela emitiu um som lindo, de chocalho gigantes folhas que caíram nesse momento e li poesia nelas.

 

Parti de Gonçalves para Duas Barras, serra do RJ. Cidade a 30 minutos de onde nasci (Nova Friburgo) . Levei comigo uma das sementes que tinha germinado. Hoje uma muda de 80cm que vive a 500 km de distância da sua geradora.

 

Me encantei com os abacateiros em geral. Percebê-los e pesquisar toda sua históriia me fala mais da gente do que eu poderia imaginar. Desde os povos originários da América Latina aos grandes latifundiários monocultores do agronegócio.

 

Hoje colho ainda mais potências de uma árvore de abacate urbana na cidade de SP - outra serra da região sudeste. Tenho produzido corantes e pigmentos a partir da terra onde ela está plantada, de suas folhas, casca, etc. Antotipias e pinturas que vão me ajudando a construir essa relação nova e questionamentos com seres vivos de uma espécie tão linda quanto muitas outras que os humanos domesticaram há séculos - ou será que somos apenas polinizadores usados por elas?

abacateiro.jpg

Rajada de Vento nº 1 surge na convivência com um abacateiro. O vento que sacudia a árvore entoou um canto, um chamamento. Recolhi as folhas que se desgarraram. 


Nas ranhuras de suas folhas, li poemas de abacateiro.
 


22º 39' 56" S

45º 52' 26" O

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antotipia:

técnica de impressão fotográfica em papel feita com os pigmentos extraídos de folhas, flores e raízes de plantas. Estou desenvolvendo estudos e experimentos com a casca do abacate.

foto antotipia03.jpg
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casca nº 1

20 x 20cm guache

tintas feitas com pigmentos extraídos da terra, da casca, das folhas e do fruto

eu vetor - descendência e migração do abacateiro:

após germinar algumas sementes do abacateiro que vive na serra da Mantiqueira, uma delas eu consegui trazer para a serra dos órgãos. Como um polinizador, faço a tentativa de perpetuar esse encontro e multiplicar o mesmo gen do abacateiro de Gonçalves.

Germinação da semente da árvore de SP

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04 de agosto de 2022

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26 de agosto de 2022

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30 de agosto de 2022

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curta de animação

A vida, as transformações e marcas de uma menina, de uma árvore de abacate e da Praça Redonda, na cidade de Afikadu.

 

escritos

BEM TE VI (setembro de 2021)

em atos insistentes de generosidade você me alimenta e tenta chamar minha atenção. me nutre exageradamente com seus frutos carnudos. ricos em luz, vitaminas saborosas. gorduras para se aquecer no inverno tropical de montanha.

eu me tornava você a cada mordida. engolia suas crias num ato de parasitismo. sem notar, impedia sua multiplicação. e nem com todo o estrondo dos pesados alimentos que você jogava ladeira abaixo pra chegarem em minhas mãos, com todo o seu gosto que eu me esbaldava. Nem som, nem tato, nem paladar, me fizeram reparar em você.

foi preciso tempo, tédio e um vento forte que chacoalhou suas folhas e me capturou o olhar.

percebi o quanto você não era estrondoso, não era formoso. meio depenado, torto e fraco. equilibrava com esforço os quilos de seus frutos. esferas rígidas escondidas em creme, que por aqui adicionamos açúcar. E em outros cantos se mistura com sal. 

de onde você vem? como fabrica essas coisas?

no chão a sua volta, uma quantidade absurda de folhas secas. tapete no fundo do oceano aéreo onde você emerge para comer e beijar a luz do sol. poucas eram as folhas que ainda sobraram agarradas a você. Pelugem rarefeita, quase imberbe. seu corpo fez pose de estátua no meio da dança e congelou. curvas estranhas e divertidas do extremo de suas entranhas.

não imagino o quão grande podes ser ali no subterrâneo ou quanto rebuliço e fartura geras no subsolo. sou aéreo, e teria que perguntar às minhocas , aos bichos mortos enterrados perto de ti.

nas rajadas do vento recolhi suas folhas e tentei ler o que vinha escrito nelas. folheei as verdes, as laranjas, amarelas, vermelhas. caíam frescas, caíam secas. letras, símbolos, ranhuras. linhas que se traçam como seus galhos, seu tronco. provavelmente com a mesma malemolência das suas raízes.

quero te plantar, quero que espalhe seus muitos eus dentro e fora de mim. precisei ler muito pra entender sua presença. precisei parar de querer tudo pra te ver. me encantei com sua infância, com o seu tempo. nossas velocidades se atropelam e eu vou parar por você. me faz bem.

uma vez desci um rio cheio de pedras, correntes e pequenas cascatas que me levava rápido em direção a algum mar. eu ria enquanto sacudia, esbarrava em pedras e engolia água. até que o rio alargou, fez uma curva e eu flutuei, lento, quase inerte. durante um tempo consegui ver o céu, as nuvens e os fios de alta tensão. nessa mesma sensação, me encontrei com você. num freio atento que não paralisa.

 

numa dança sutil com corpo quase estático, me misturo a você. por partículas que trocamos no ar, por olhar e pensamento.

sigo no esforço de te ler, te ouvir, sentir o seu gosto e te tocar. sem querer te entender. apenas compartilhar algo que não sei. só pra aproveitar mais essa sua pontinha que não se esconde de mim, que se revela imersa no meu substrato.

quem sabe ao me tornar parte da terra, ao me decompor no solo, teremos diálogos mais profundos e obscuros. enquanto isso, aproveito sua leveza, sua amizade e sua guacamole.

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